Rupert tocou seguidamente na mesa, e dela saiu algo que, sugiro eu, fosse uma placa toda de vidro, lisa. Ele tocou na placa, que piscava. Imediatamente ela projeta uma tela, com um "menu" de um sistema de computador. Após tocar em mais algumas opções, dessa vez na própia projeção, eis que surge a imagem de um homem na tela. O homem aparentava ter mais de trinta anos, mas não chegava a mais de quarenta. Apesar de seu rosto um tanto jovial, seu cabelo era grisalho, e sua "barbicha" também.
O homem levou alguns segundos para falar. Fitava-me como a um estilista selecionando modelos para sua grife. Depois rapidamente desviou o olhar para Rupert, e as palavras fluíram gentis de sua boca:
- Olá, meu bom e velho amigo; como se passa ? - disse ele.
- Bem. E o senhor ? - Rupert fora rápido com as palavras.
- Muito bem! Ah, vejo que a senhorita Kassel já chegara. Bom, creio eu que lhe é lícito uma explicação. - ele parou, aguardando minha reação.
- Sim senhor - disse eu apenas.
- Pois muito bem... - ele desviou seu olhar que novamente ficara em mim, depois pigarreou. - Sei que não possuo um dos melhores modos de se recrutar alguém... Sei também que se fosse o caso de pedir-lhe uma escolha, jamais aceitaria deixar sua família. - não pude evitar o toque chocante que essas palavras me puseram. - A propósito, encontramos seu robô vagando pela floresta. Como não aparentava estar bem, levaram-no para Pondelix, onde será devidamente consertado. Enfim, não desviemo-nos do assunto. Gostaria de destacar que aqui não aceitamos qualquer um; você, minha cara, fora escolhida por sua notável... Alta capacidade de inteligência. Você não faz ideia do que poderá criar aqui. - Saul pôs uma estranha ênfase nessa frase, e concluiu: - Seja Bem Vinda.
Logo depois ele desligou. Rupert desativou a projeção, e voltou-se para mim com um leve sorriso.
- Esperamos que goste daqui. Afinal de contas, é seu novo lar. - ele não demonstrava sinal de que prosseguiria, então resolvi mostrar-lhe meu indignamento.
- Mas, sinceramente, continuo confusa. - murmurei.
Ele me olhou com uma expressão frustrada, e tocou em mais alguns ícones na mesa. Em seguida, uma pequena área do chão ao seu redor deslocou-se, e começou a subir, ao mesmo tempo em que o teto se abria em uma dimensão equivalente. Em poucos segundos, Rupert desaparecera pelo teto.
Eu estava emburrada, enquanto Linden mostrava-se, para minha surpresa, bastante animada por minha "visita não - requerida".
Assim que chegamos à entrada, chamou-me a atenção um grupo de garotos a poucos metros de nós. Aparentavam serem da nossa idade, bastante descolados, e não estarem nem aí pra estudar. Um deles fumava um cigarro. Era alto, louro, e tinha lindos olhos castanhos. Sua pele era bronzeada, e pude notar vários piercings espalhados em seu rosto.
Linden notou meu interesse.
- Rachel... Não encare; eles não são muito... amigáveis. - sua voz era cautelosa e séria.
Rapidamente, voltei meu olhar para ela. Percebi que Jennifer também olhava, mas de uma maneira tímida e discreta.
- Quer carona para Pondelix ? - disse Jennifer, dessa vez olhando para mim.
- Pode ser. - dei de ombros.
Jennifer retira de seu bolso um pedaço de acrílico com alguns pontos pretos. Fiquei encarando, imaginando o que poderia vir a ser aquilo. Jennifer, então, toca em cada um dos pontos pretos, e o acrílico acende, aparecendo nele um menu.
- O que é ? - arrisquei-me a perguntar, gesticulando para o aparelhinho.
Jennifer bufou.
- É o celular daqui. "Corretamente falando" se chama "c-213". É tipo um MPtudo. Andamos de polin através dele, e todo mundo tem direito a um assim que chega. - disse ela.
Dessa vez fiquei me perguntando o que viria a ser um "polin". Jennifer leu minha expressão, e novamente explicou:
- Polin é o tipo de veículo daqui. Mas a diferença é que ele... Bem, não anda Apenas em solo.
Levou-se apenas questão de milésimos para o celular projetar a imagem de um carrinho bem à nossa frente. Mas quando me aproximei, pude ver que ele era real. Bem, era um pouco parecido com modelos terrestres.
Ele era verde, pequeno e prático. Sua lataria parecia ser feita de plástico, pois era muito macia, e suas rodas também eram verdes, e reluziam.
Jennifer tocou no celular novamente, e o polin piscou, abrindo, ou melhor, quase como "engolindo suas portas" de um jeito bem bizarro. Sentei-me confortavelmente no banco de trás, enquanto Linden e Jennifer seguiam na frente, tomando os controles, como em um avião.
No lugar do volante e de todas as outras coisas que são essenciais para dirigir um carro, estava apenas uma placa de vidro, lisa, e com controle touch. Era tão simples de dirigir: apenas se programava o carro, e ele ia sozinho. Mas você também poderia ativar o modo "volante", que faz a placa integrar um volante simples para você guiar o polin; dizia-me Jennifer, enquanto relaxava no banco.
Quando olhei pela janela, vi que estávamos realmente voando e, mais à frente, um grande prédio prateado me aguardava mais uma grande surpresa.